E lá se foram 22 anos

Sim, já fazem 22 anos que eu toco bateria. Comecei a tocar ali pelos 13 anos dentro de uma igreja, curiosamente. Não era a igreja que eu frequentava na época, mas o preço das aulas de bateria na minha cidade não estavam compatíveis com o que meus pais podiam pagar e foi lá que um professor muito querido começou a me ensinar. Ainda lembro dele dizendo que eu já tinha alguma facilidade, que eu aprendia em uma semana o que um aluno dele costumava aprender em um mês. Talvez eu já tivesse alguma destreza, talvez tivesse inconscientemente prestasse mais atenção que os outros a certos detalhes. Escolha sua teoria e fique com ela para si.

Eu não sei te dizer de onde saiu esse fascínio e curiosidade pelo instrumento, mas tenho até foto sentado numa quando era mais novo em um aniversário de uma prima distante. É meio louco pensar que certas coisas me levaram a esse interesse por um instrumento musical que ditou uma parte muito grande e significativa da minha vida. Tanto que já dura mais da metade do que eu já vivi.

Inclusive existiu um único período, desde que comecei a tocar, que parei por completo e posso te dizer com toda certeza do mundo que foi uma das piores coisas que já fiz para mim mesmo. Era início de faculdade, muitas novidades e exigências as quais eu não estava nem um pouco acostumado, eu recém fazia novas amizades e começava a me integrar ao campus, namorar (sim eu fiz isso logo de início), que pareceu muito para processar. Eu não estou sendo completamente honesto aqui porque, pensando bem mesmo, eu tinha me frustrado um pouco com umas experiências anteriores e talvez só quisesse dar uma respirada de tudo para focar nas coisas interessantes que eu estava vivendo. Afinal essas ainda não estariam me decepcionando. De qualquer forma eu me deixei consumir pela faculdade e isso fez mal para mim. Não porque a faculdade em si era ruim, mas eu não estava sabendo cuidar da minha saúde em geral, cuidar de mim mesmo. E que homem sabe, em geral? Foi aí que uma vontade de tocar voltou a se formar dentro de mim e eu a abracei. Comecei a procurar por bandas buscando baterista, o que é uma coisa tão comum quanto uma pessoa buscando um rolê para dar num sábado. Dali em diante eu voltei aos poucos, com uma sensação de que eu paraticamente não sabia mais tocar, mas a memória muscular me ajudou e foi como andar de bicicleta. Voltei a pegar o gosto pelo coisa e fui tocando pelas festas universitárias que naquela época já não pareciam ser como um dia já foram, mas ainda assim era uma das melhores coisas que a gente tinha como jovens adultos.

Cheguei a um ponto de cogitar sair da faculdade para virar músico profissional. Em 2015 eu já fazia música autoral que até hoje sou orgulhoso de ter insistido nesse absurdo que parece ser fazer música sendo zé ninguém. Como se um famoso nunca tivesse sido um zé ninguém em algum momento. Foi mal Justin nem todo mundo nasce cantando com fama. Mas voltando, olhar para música como profissão mudou minha perspectiva sobre a música em si e me fez enxergar tantos trabalhos que passam batido dentro do mundo do entretenimento. Esse olhar me deu um pouco mais de confiança das minhas possibilidades e resolvi que iria buscar um espaço para mim. Um espaço que eu ia ter que abrir e descobrir basicamente sozinho. Tranquei a faculdade e ao longo de cerca de 6 anos vivi essa jornada de aprender, me esforçar, fazer cagada, me frustrar, me irritar, me arriscar, me sentir extremamente feliz, estudar, compartilhar e tantas sensações que não tenho como descrever aqui. Acredito que foi o momento certo fazer tudo isso porque eu era relativamente novo e consequentemente mais burro do que hoje, mas as experiências e vivências vão ficar comigo para sempre. Por mais que hoje eu não seja o músico como sonhava ser um dia. E talvez até melhor assim pelo que tenho hoje e todo meu contexto – por favor NÃO ESQUEÇA DE CONSIDERAR TODO SEU CONTEXTO. Esse sonho necessariamente morreu? Não. Não acredito que sonhos morram, mas, como compôr uma música, a gente nunca termina ele – desiste. E desistir não precisa ser uma fatalidade ou uma sentença. Deixar de viver e se virar sim. Eu me adaptei. A pandemia me obrigou a tirar umas férias que já faziam alguns anos que eu precisava. Podia ter acontecido muita coisa diferente, tanto boa quanto ruim, mas o que aconteceu aconteceu e olhar para frente, traçar o próximo rumo sem deixar a minha história e meu contexto de lado, acredito ser o melhor que eu possa de fato fazer.
Agir sobre o mundo que age sobre mim.

Já fui o “baterista das mil bandas”. Inclusive um amigo que cantava numa das bandas da facul comigo veio conversar depois de um show da minha banda Lupino – e disse depois de eu responder que estava basicamente tocando numa banda só: “Nossa cara, muito diferente mesmo daquela época. Parece outro Diego.” E é outro Diego. Eu gosto muito desse Diego, inclusive. Quis relembrar de tudo isso possivelmente porque no mesmo show, mas antes de ele ter começado, um outro amigo da música me perguntou se o nosso som era autoral e acabamos conversando um pouco sobre esse mundo tão particular compartilhado entre nós, mas que eu sinto às vezes que é muito alheio a pessoas com muito pouco ou até nenhum envolvimento com a arte em geral. Se você se identificou com essa falta de envolvimento, dê uma chance. Só isso que eu peço. Mas não vá desistir depois de 1h de aula. Eu estou levando isso há 22 anos. Considere um hobby, assim como eu estou considerando este de escrever e se permita ser ruim também. Mas tenha esse tempo para si mesmo igual quando você vai para terapia.